Hoje é um dia verdadeiramente histórico para Cernache, que irá recuperar o estatuto de vila, perdido em 1836. Esta quarta-feira, a partir das 15h00, será votado na Assembleia da República o diploma que permitirá concretizar esta tão desejada reposição.
Trata-se da correção de uma injustiça histórica e da restituição de um estatuto que Cernache nunca deveria ter perdido. Este é, por isso, um dia de celebração para todos os cernachenses. Importa, contudo, enquadrar histórica, social e geograficamente esta “antiga” vila do concelho de Coimbra.
A freguesia de Cernache localiza-se a cerca de 8 km da cidade de Coimbra, ocupando o extremo sul do concelho, com uma área aproximada de 20 km². Desde cedo, beneficiou de uma posição geográfica privilegiada, situando-se no eixo de ligação entre Bracara Augusta (Braga) e Olisipo (Lisboa), bem como no cruzamento de importantes rotas medievais.
A sua localização estratégica, aliada à fertilidade dos seus campos — resultado da abundância de água —, foi determinante para o seu precoce povoamento e desenvolvimento, promovendo, desde tempos remotos, a fixação de comunidades neste território.
Em tempos, Cernache foi conhecida como “Sernache dos Alhos”, devido à abundância desta cultura. Para além dos alhos, destacavam-se outros produtos agrícolas, como as tradicionais cebolas, cuja importância perdura até hoje, nomeadamente através da “Feira das Cebolas”, realizada na Praça Velha, em Coimbra, desde 1986, recuperando a tradição da antiga Feira de São Bartolomeu. Também as indústrias tradicionais tiveram um papel relevante no desenvolvimento local, destacando-se atividades como a latoaria, a olaria, o fabrico de calçado e de vassouras (“tricana”), a que se juntaram, mais tarde, unidades industriais como a Poceram e a Probar.
É impossível dissociar a história de Cernache da sua água — das suas nascentes, ribeiras e fontes, que permitiram o desenvolvimento da agricultura de regadio, contribuíram para a fertilidade dos seus campos e forneceram energia aos seus moinhos. Não nos podemos esquecer que durante séculos, Cernache foi uma terra de moinhos e moleiros, assumindo-se como uma das principais produtoras de farinha do concelho de Coimbra.
Cernache foi elevada a vila por carta de D. João I, em 1420, tendo recebido foral em 1514. Nesse contexto, tornou-se sede de concelho, com ampla jurisdição e significativa autonomia face a Coimbra. Rica, fértil e estratégica, era reconhecida pelos monarcas como um território de grande valor.
Contudo, o Decreto de 6 de Novembro de 1836, no âmbito da reforma administrativa de Passos Manuel, levou à extinção do seu concelho, à semelhança de cerca de 498 outros, corrigindo algumas situações, mas criando também diversas injustiças — entre as quais a perda do seu estatuto.
Hoje, essa injustiça começa finalmente a ser reparada.
O Executivo da Junta de Freguesia de Cernache — representado pela sua Presidente, Marta Ferro, pelo Secretário, Armando Sousa, e pelo Tesoureiro, Pedro Rosário — bem como pelo Presidente da Assembleia de Freguesia, Marco Rodrigues, deslocaram-se à Assembleia da República em representação de todos os cernachenses, levando consigo o orgulho e a emoção deste momento histórico.
É este sentimento que queremos partilhar com todos vós.
Viva Cernache!
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