Uma equipa da Universidade de Coimbra (UC) está a desenvolver uma aplicação móvel destinada a monitorizar e reduzir o desgaste psicológico durante o internato médico, numa fase da carreira em que o ‘burnout’ afecta mais de 40% dos profissionais.
A aplicação está a ser criada no âmbito do projecto RESOUT – Aplicação móvel para monitorização e prevenção do ‘burnout’ em médicos internos, liderado pelo Instituto de Psicologia Média da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC).
Segundo a coordenadora do estudo, Ana Telma Pereira, investigações anteriores permitiram perceber “que estudantes e profissionais de medicina têm níveis elevados de perturbação psicológica, como stresse, ansiedade e depressão”.
“No RESOUT, dirigimos o foco para os médicos internos, já que é durante o internato que a prevalência do burnout atinge o seu pico, afectando mais de 40% dos profissionais, como verificámos com os nossos estudos anteriores”, explicou.
Os trabalhos preliminares indicam também uma relação entre ‘burnout’, redução da empatia e erro médico. De acordo com Ana Telma Pereira, a associação entre ‘burnout’ e erro é parcialmente mediada pela menor empatia, enquanto o perfeccionismo pode ter um efeito indirecto através do desgaste psicológico e da redução da empatia.
A aplicação recolhe informação sobre a forma como cada utilizador se sente, pensa e comporta, bem como sobre a sua saúde e bem-estar. Algoritmos de inteligência artificial deverão depois identificar perfis individuais de risco e disponibilizar conteúdos personalizados de promoção da saúde mental, sobretudo através de estratégias de ‘mindfulness’ e autocompaixão.
São, segundo a investigadora, “estratégias que a nossa investigação e outros estudos têm demonstrado estarem associados a menores níveis de ‘burnout’ e sofrimento psicológico.
Os médicos internos podem já participar no projecto através da aplicação ZENU, desenvolvida pela equipa para monitorizar parâmetros cognitivo-emocionais e comportamentais através de questionários e disponível para Android e iOS.
Numa fase posterior, a eficácia da intervenção será avaliada num ensaio clínico com médicos internos, recorrendo a questionários psicológicos, biomarcadores como os níveis de cortisol e ressonância magnética funcional.
“Esta abordagem permitirá compreender melhor as alterações cerebrais associadas ao ‘burnout’ e o impacto da intervenção digital na sua prevenção e tratamento”, afirmou Ana Telma Pereira.
“No futuro, esperamos que esta aplicação possa passar a ser utilizada, de forma gratuita, por médicos internos e outros profissionais de saúde, identificando precocemente sinais de desgaste emocional e disponibilizando intervenções personalizadas”, acrescentou.
O RESOUT envolve ainda investigadores do Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde e do Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC.
O projecto é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e conta com o apoio do Conselho Nacional do Médico Interno.
Fonte: Campeão das Províncias
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