A Misericórdia da Figueira da Foz assinalou, no domingo (5), 182 anos de vida, inaugurando um painel evocativo em memória dos benfeitores da Obra da Figueira, instituição incorporada na Misericórdia em 1976.
A inauguração do painel de azulejos no topo do edifício Jardim-de-Infância António Biscaia representa um trabalho pensado há 12 anos para evocar a memória dos benfeitores José Jardim, Teresa Xavier Costa Ramos e António Biscaia.
A Obra da Figueira começou a ser pensada nos finais do século XIX como um Asilo de Infância de Desvalidos (1904 – 1987) porque havia muitos figueirenses com bom coração e grande consciência de cidadania. Segundo Joaquim de Sousa esta foi uma época em que a Figueira da Foz começou a despontar para novos horizontes, atraindo gente de bem, mas os figueirenses não podiam esquecer os seus mais necessitados e esta obra veio “recolher e amparar as crianças desvalidas dando-lhes alimentos e o ensino para as habilitar a ganharem honestamente os meios de subsistência. Inicialmente começou só com crianças, mas pouco tempo depois passou a acolher homens e mulheres pobres”.
“Nesta missão dura” como classificou o provedor, o responsável não esqueceu todo o pessoal que presta serviço na Instituição, deixando um profundo agradecimento a todos.
O provedor, que está há mais de duas décadas à frente dos destinos da Instituição com um trabalho realizado de inegável valor patrimonial e humano, não escondeu a enorme preocupação que se vive presentemente com a Misericórdia, que necessita de “mexer no seu património para equilibrar as contas”. Como ainda agora, em Assembleia Geral, ficou demonstrado que o saldo negativo em 2021 deverá ultrapassar os 160 mil euros e o saldo provisional para 2022 deverá ser negativo na ordem superior aos 190 mil euros.
“A Misericórdia já ultrapassou os seus limites”, diz Joaquim de Sousa. O estado propôs um teto orçamental – superior a 900 euros – por utente e comparticipa apenas com um terço desse valor (pouco mais de 350 euros) há vários anos por actualizar, cabendo às misericórdias e familiares pagarem a diferença.
Segundo Joaquim de Sousa, o Estado actualiza os ordenados mínimos, mas não actualiza as comparticipações “e deixa o fardo para as instituições resolverem. É inadmissível”.
Para além disto, a pandemia já levou à Misericórdia “mais de 200 mil euros sem qualquer retorno oficial”. A manter-se esta situação “somos forçados a aumentar significativamente as prestações familiares de cada utente a partir já de Janeiro próximo, responsabilidade essa que competia ao Estado”.
O provedor defende que esta “é uma tentativa de estatização que as misericórdias recusam” e afirma que a situação não pode ser tolerada até porque as Instituições de Solidariedade Social (IPSS’s) “vivem momentos muito difíceis”. É um ditado antigo – “quando não há dinheiro pagam os pobres…”.
“Misericórdia da Figueira: uma das melhores do país”
António Sérgio Martins, presidente das Misericórdias do Distrito de Coimbra, felicitou
a Instituição Figueirense que considerou “uma das melhores do país pela sua transversalidade”, validando toda a intervenção anterior ao considerar que “o Estado está a ferir-nos de morte, legislar sem conhecer o terreno é um erro grave”.
Olga Brás, vereadora em representação da Câmara Municipal, felicitou a Misericórdia Obra da Figueira pelo aniversário e pelo excelente trabalho realizado pelos mais necessitados em prol da comunidade.
Como autarca manifestou a sua preocupação pela situação vivida nesta Instituição, lamentando que “o Estado esteja à espera que as autarquias assumam essas funções que são do Governo”. A vereadora, que reconheceu “que a Misericórdia tem as mensalidades mais baixas do distrito”, explicou que tem participado em reuniões com o parceiro Estado para que se encontre um valor “mais justo” de comparticipação por utente. A responsável espera que, até Abril, a autarquia consiga negociar uma “comparticipação digna” porque é preciso “olhar para estas casas com carinho” mas conscientes do “trabalho fantástico que desenvolvem diariamente” concluiu.
Homilia de compaixão nas cerimónias religiosas de aniversário
As festividades comemorativas do 182.º aniversário da Misericórdia Obra da Figueira iniciaram-se com a missa de aniversário celebrada na Capela de Santo António, uma das edificações religiosas mais antigas da cidade, datada de 1527 e que em breve comemora 500 anos da sua fundação.
O capelão da Instituição, o Padre Carlos Noronha Lopes, evocou aquele espaço de convento a misericórdia como um local mítico ao longo de quase cinco séculos, que sempre foi “um lugar de acolhimento de cansados, doentes ou dor, mas também os mais necessitados pela amargura ou compaixão. É uma casa que exalta sempre os mais humildes”, disse o padre Carlos Lopes durante a sua homilia.
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