COIMBRA,3 de Maio de 2026

Estudo revela desgaste e pressão entre professores de Enfermagem

27 de Março 2026 Rádio Regional do Centro: Estudo revela desgaste e pressão entre professores de Enfermagem

Um estudo desenvolvido por José Hermínio Gomes, docente da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC), concluiu que os professores de Enfermagem em Portugal apresentam uma percepção moderadamente positiva sobre o equilíbrio entre a vida profissional e familiar, embora identifiquem constrangimentos relevantes nessa conciliação.

A investigação, que serviu de base à tese de doutoramento recentemente defendida pelo investigador, inquiriu 183 docentes de Enfermagem em exercício em instituições de ensino superior de todo o país, incluindo o continente e as regiões autónomas. Os resultados indicam que estes profissionais registam uma qualidade de vida no trabalho entre moderada e boa, mas enfrentam dificuldades quando procuram compatibilizar as exigências da profissão com a esfera pessoal e familiar.

De acordo com José Hermínio Gomes, a dimensão “relação casa-trabalho”, avaliada na escala Work-Related Quality of Life (WRQoL), obteve um valor médio de 3,58 numa escala de 1 a 5, o que corresponde a uma percepção “moderadamente positiva”. Ainda assim, este resultado ficou abaixo de outras dimensões analisadas, como o “bem-estar/satisfação no trabalho”, que alcançou um valor médio de 3,77.

O estudo conclui também que a capacidade para o trabalho entre os docentes de Enfermagem tende a diminuir de forma mais evidente a partir dos 50 anos, agravando-se após os 55. Segundo o investigador, esta evolução resulta da “interacção entre factores individuais e organizacionais” e reflecte “o efeito cumulativo das exigências profissionais ao longo da carreira”.

A análise por faixas etárias aponta que são os docentes em fases intermédias da carreira, entre os 40 e os 55 anos, e com vínculo estável, aqueles sobre quem a carga de trabalho e a pressão organizacional têm maior impacto. Em causa está a acumulação de funções de ensino, investigação, supervisão clínica e, frequentemente, responsabilidades de gestão.

Já entre os docentes mais jovens, a pressão é sentida sobretudo em ligação com a progressão na carreira e a estabilidade profissional. As exigências emocionais, por seu lado, atravessam diferentes grupos, mas têm maior peso entre os professores directamente envolvidos na supervisão de estudantes em contexto clínico.

José Hermínio Gomes identifica a relação entre trabalho e família como um dos factores mais críticos apurados pela investigação. Segundo o docente, uma percentagem significativa dos inquiridos aponta este aspecto como um constrangimento relevante no quotidiano profissional. Entre os impactos mais frequentemente reportados surgem a fadiga física e mental persistente, associada à acumulação de funções e ao prolongamento do trabalho para além do horário formal, níveis elevados de stresse, dificuldades de recuperação e descanso, e uma percepção de diminuição da capacidade para o trabalho, nomeadamente ao nível da energia, concentração e desempenho.

Perante estes resultados, o investigador defende a adopção de modelos de organização do trabalho mais flexíveis, com uma gestão realista da carga horária e das múltiplas funções atribuídas aos docentes. Considera ainda que a previsibilidade de horários, a adequação das exigências às diferentes fases da carreira e o reconhecimento das responsabilidades familiares devem ser tidos em conta pelas instituições.

O docente da ESEUC sublinha também a importância dos estilos de liderança, defendendo abordagens participativas e sensíveis às necessidades dos professores, capazes de promover uma cultura organizacional mais equilibrada e orientada para o bem-estar. Ao nível individual, refere a necessidade de reforçar competências de gestão do tempo, definição de prioridades e estabelecimento de limites, sem desvalorizar o autocuidado e a recuperação física e emocional.

Apesar de sublinhar a necessidade de prudência científica e metodológica, José Hermínio Gomes sustenta que existe uma relação entre o bem-estar dos professores de Enfermagem, a qualidade dos processos formativos e, de forma indirecta, a qualidade futura dos cuidados de saúde.

A tese, intitulada O Professor de Enfermagem em Portugal. Capacidade e Qualidade de Vida no Trabalho, foi defendida no início de Março na Universidade Católica Portuguesa, no Porto. O trabalho teve orientação de Arménio Guardado Cruz, professor da ESEUC recentemente aposentado.

Fonte: Campeão das Províncias

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