COIMBRA,5 de Maio de 2026

Reportagem: Cooperativa Bonifrates: há 42 anos a “fazer teatro como uma festa”

28 de Janeiro 2022 Rádio Regional do Centro: Reportagem: Cooperativa Bonifrates: há 42 anos a “fazer teatro como uma festa”

Ana Luísa Pereira

É talvez um dos grupos de teatro mais antigos em Coimbra, além dos grupos de teatro universitário, ainda no activo e que manteve sempre uma actividade ininterrupta. A Cooperativa Bonifrates, que celebra, no próximo sábado, 42 anos, é reconhecida pela cidade como “um rosto claro e consistente ao longo de todo o seu percurso, ou seja, como um conjunto de pessoas que fazem teatro assumindo esta arte como um exercício de cidadania”, enaltece João Maria André, presidente da direcção e um dos fundadores da Cooperativa.

A Bonifrates é uma cooperativa de produções teatrais e realizações culturais fundada em Coimbra, em Janeiro de 1980 e que desenvolve o seu trabalho no Teatro Estúdio Bonifrates, na Casa Municipal da Cultura. O seu rosto é “fazer teatro como uma festa”, por um lado, e ser “uma comunidade de afectos”, por outro. A Cooperativa tem percorrido diversos géneros teatrais, passando pelo drama e chegando à comédia, que é sempre feita no sentido de olhar criticamente e satiricamente para a vida.

A Bonifrates pretende, fundamentalmente, ajudar as pessoas a pensar e quer levá-las a divertirem-se. “Como dizia Brecht, «é possível ao mesmo tempo uma pessoa pensar criticamente e divertir-se»”, refere o presidente, acrescentando que outra das aspirações é proporcionar-lhes e ao público da cidade “o usufruto de uma expressão artística”.

Embora a Cooperativa tenha realizado peças sobre temas muito candentes, como a violência urbana, a violência doméstica, a terceira idade, a prostituição ou os sem-abrigo, não é seu objectivo dizer às pessoas como devem pensar ou agir. “A função do teatro é mostrar aquilo que muitas vezes está perante os nossos olhos, mas invisível. Nós queremos desenvolver o nosso papel e não propriamente dizer às pessoas «isto é bem ou isto é mal», compete a elas próprias olharem para a realidade, pensarem sobre ela, analisarem-na criticamente e tomarem as suas opções”, sublinha, referindo ainda que as pessoas sabem que as peças não têm o sentido de “teatro panfletário”, mas sim de “teatro empenhado e comprometido com a visão crítica da realidade”.

42 anos de “momentos gratificantes”

Entre 1982 e 1984, a Cooperativa acolheu uma companhia de teatro profissional para a infância, que depois alargou o seu público e se transformou numa companhia de teatro destinada a outros públicos. Em 1984, por diversas razões, essa companhia acabou, no entanto, o grupo de teatro amador continuou o seu trabalho até aos dias de hoje. As encenações são assumidas por membros cooperadores da Bonifrates, de forma inteiramente gratuita. João Maria André explica que nenhum dos membros recebe dinheiro pelo trabalho que faz. “Constituímos a Cooperativa para que as pessoas que queriam fazer teatro, e que exerciam a sua actividade profissional em Coimbra nas mais diversas profissões, o pudessem fazer”. Neste momento, a Bonifrates é constituída por professores, funcionários da Universidade de Coimbra, funcionários da Justiça, tipógrafos, enfermeiros, pessoas que desenvolvem as mais diversas actividades na cidade. “É preciso terem a capacidade de se integrarem num trabalho colectivo e essa é também uma das razões para não fazermos cursos de iniciação para recrutar novos actores. A nossa formação é feita durante a montagem dos espectáculos”, frisa. As pessoas que querem entrar para a Cooperativa vão aparecendo, começam a trabalhar nas bilheteiras, nos bastidores e quando inicia uma nova peça começam a participar na leitura. “Praticamente em todos os espectáculos há sempre um ou dois actores que entram pela primeira vez”, acrescenta o presidente.

Actualmente, a Cooperativa Bonifrates tem em cena a peça “Quero dançar o poente”, com direcção, dramaturgia e encenação de João Maria André. Esta é uma peça focada no envelhecimento activo e criativo. O presidente expõe que desde o princípio que o objectivo não era “o espectáculo ser sobre os velhinhos e coitadinhos, mas sim fazer uma peça sobre formas criativas de viver aquilo a que eu chamo de a maior idade”. Foi desenvolvida, em primeiro lugar, uma actividade de entrevista, de ouvir e fazer sessões com pessoas idosas da região de Coimbra, que têm aproveitado a sua reforma, com o intuito de desenvolver projectos interessantes para a sociedade. “A partir daí construímos as personagens, através das suas memórias e daquilo que fazem neste momento. Como não tínhamos texto prévio, a peça de teatro foi criada por meio do processo de improviso. Uma fase de trabalho ainda foi feita à distância, no entanto, as condições melhoraram e depois toda a parte mais substancial decorreu já no nosso teatro estúdio”.

Obra literária retrata 40 anos da Cooperativa

Em Dezembro de 2021, realizou a apresentação pública do livro dos 40 anos – Os 40 Anos da Cooperativa Bonifrates: E Alegres Continuamos! – um livro da autoria de Carina Correia, que escreveu, ouviu, entrevistou e recolheu os dados da história da Cooperativa e criou um livro “que as pessoas têm considerado bastante interessante”, frisa João Maria André. O livro assenta em dois valores e ideias fundamentais: “fazer da cooperativa uma verdadeira família, transformando-a numa casa e numa festa de afectos e cumplicidades que, partindo do seu interior, transbordavam para todos aqueles a quem dávamos a mão para exprimir artisticamente, ainda que com um olhar crítico e interventivo, a nossa relação com o mundo, com os humanos e com todos os seres que habitam esta morada a que chamamos terra” e ainda “ assumir o teatro como exercício de cidadania, fazendo dele uma arma política no sentido mais nobre desta palavra”. A apresentação do livro foi a abertura para a celebração dos 42 anos. Como neste momento não se podem fazer grandes celebrações, a Bonifrates irá comemorar fazendo teatro.

“Foram 42 anos muito gratificantes, que penso terem sido de grande importância para a cidade de Coimbra, no entanto, com alguns momentos difíceis, nomeadamente, quando não existiam grandes financiamentos e quando o tecto começou a cair”, recorda o presidente, referindo ainda que se lhe perguntassem se valeu a pena, diria: “se voltasse 42 anos atrás e tivesse que pensar e repensar, com o que sei hoje, se era de avançar ou não avançar para um projecto destes, pois abraçá-lo-ia com a mesma força com que hoje o continuo a fazer”.

»» [Reportagem da edição impressa do “Campeão” de 27/01/2022]

Fonte: Campeão das Províncias

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