COIMBRA,24 de Fevereiro de 2024

António Ataíde: “O Fado de Coimbra tem esta capacidade de mexer com os sentimentos”

20 de Fevereiro 2023 Rádio Regional do Centro: António Ataíde: “O Fado de Coimbra tem esta capacidade de mexer com os sentimentos”

Tinha apenas 8/9 anos quando começou a cantar. Apesar do ambiente que lhe rodeava o berço ter sido sempre musical, garante que a sua descoberta individual não foi premeditada. Inspirou-o, – e ainda inspira -, Zeca Afonso, que em muito contribuiu para o homem e artista que é hoje. António Ataíde está no mundo da música há mais de 30 anos e, na sua voz, o Fado de Coimbra já atravessou mares e cruzou continentes. Brasil, Japão, Moçambique e Canadá são apenas alguns exemplos de países que já se deixaram emocionar por esta expressão musical única no mundo. Em entrevista ao “Campeão”, António Ataíde não esconde o orgulho que sente em levar o que é português a outros palcos.

Campeão das Províncias [CP]: Se não existisse música, quem seria António Ataíde?

António Ataíde [AA]: Provavelmente, não seria a mesma pessoa. A música trouxe uma grande compensação para a minha vida. Gosto muito de cantar e de partilhar o palco. Estar com os meus músicos a tentar transmitir a emoção é das coisas mais fantásticas que existem. Além disso, as experiências que tive e as viagens que fiz teriam sido completamente diferentes.

[CP]: Quando descobriu que parte de si era música?

[AA]: Eu sempre cantei, desde os 8/9 anos. Como era de uma família onde toda a gente cantava, tinha a ideia de que o mundo era todo musical. Só mais tarde é que comecei a perceber que tinha qualquer coisa de válida em termos vocais. Não foi algo premeditado, foi sempre muito natural. Não valorizei muito na altura certa. Só aos 28 anos é que comecei a estudar música no Conservatório, mas tenho pena de não o ter feito cedo. Sempre tive, no entanto, essa intenção de me ligar à música.

[CP]: Que inspirações tinha na altura?

[AA]: O Zeca Afonso é cerca de 80% daquilo que, hoje, faço. Além deste, Luís Góis. Também adoro Sting, por exemplo. Sou transversal na música, mas a música portuguesa é aquela que mais mexe comigo. Fausto, Vitorino, Sérgio Godinho e muitas outras referências.

[CP]: Zeca Afonso contribuiu para o caminho que tem vindo a traçar até hoje?

[AA]: Claro que sim. Zeca Afonso foi sempre muito forte para mim. Foi sempre um homem de uma grande preocupação humanista e social. Aliás, as letras dele são, muitas delas, sobre temas de injustiça. Isso mexeu sempre comigo, desde criança.

[CP]: Aos 20 anos foi desafiado a integrar um grupo de Fado de Coimbra. Foi aí que o seu amor pelo Fado se adensou?

[AA]: Na realidade, um dos meus irmãos mais velhos já cantava. Eu já cantava muito Fados de Coimbra também. Contudo, eu não tinha relações directas com ninguém que tocasse guitarra. Na altura, foi um grupo de amigos que me cativou no sentido de começar a organizar-me melhor para cantar mais a sério o Fado. Todavia, em termos de reportório, eu já tinha tudo. Entre os 8 e os 15 anos, aprendi a maior parte dos fados que conheço.

[CP]: O que o encanta no Fado de Coimbra e na própria cidade?

[AA]: Curiosamente, eu tenho algum amor-ódio em relação à cidade. Gosto muito do Fado de Coimbra, mas abomino as tradições académicas no que diz respeito à praxe quando esta é mal feita. Qualquer sentimento de superioridade me causa alguma revolta. Acho que Coimbra precisava de melhorar muito nesse aspecto. Fisicamente, gosto muito da cidade. Humanamente, gosto das pessoas. A nível de organização, penso que Coimbra parou um bocadinho no tempo em termos sociais. A Universidade ainda é muito dominante e é ainda muito velha em tempo e na forma de estar. Vivi quase 40 anos na cidade e tenho um sentimento muito ambíguo. Penso que as pessoas não valorizam o Fado de Coimbra como deveriam. É uma relação que nós, portugueses, temos com muita coisa: valorizamos mais o que é de fora. Actualmente, acredito que a música portuguesa começou a ser um bocadinho mais valorizada, mas ainda precisa de ser mais.

[CP]: Já levou o Fado de Coimbra a vários países e continentes. O nosso Fado é apreciado além-fronteiras?

[AA]: Quando tenho uma plateia de japoneses a chorar à minha frente quando estou a cantar, só posso responder que é muito apreciado. A guitarra portuguesa de Coimbra dá-lhe um brilho fantástico, porque tem um som inacreditável, que eu acho que mexe com toda a gente no mundo. O tocar as pessoas é muito importante e senti muito isso quando cantei em países como os Estados Unidos da América, Holanda, Canadá, Japão e até o Brasil. O Fado tem esta capacidade de mexer com os sentimentos, mesmo que as pessoas não percebam o que é que estão a ouvir.

[CP]: O que é que de melhor guarda de todas estas experiências?

[AA]: Essencialmente, uma coisa que eu acho que é muito invulgar acontecer. Eu mantenho a mesma viola quase desde que comecei a cantar. Além disso, as ligações que eu tenho são sempre muito estáveis. Ter ao meu lado os meus amigos é extraordinário.

[CP]: Se António Ataíde fosse uma música, qual seria?

[AA]: Uma música nostálgica e alegre ao mesmo tempo. Essencialmente, que transmitisse alguma serenidade e paz. Na música, gosto de coisas mais tranquilas e, idealmente, com um final feliz.

Entrevista de Cátia Barbosa (Jornalista do “Campeão” no Porto)

Publicada na edição em papel do “Campeão das Províncias” de quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2023

Fonte: Campeão das Províncias

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